Rosoux
traz uma abordagem deveras interessante para um estudo introdutório das artes
na resolução de conflitos. Primeiramente, apresentando a visão de Jean Barrea
sobre as artes nas relações internacionais, depois ilustrando o papel da arte
na propaganda para a paz; em seguida, a autora sintetiza a atuação da
Organização Não-Governamental RCN Justice et Démocratie ao usar
a arte para promover a paz em Burundi, na região dos Grandes Lagos Africanos,
finalizando com algumas conclusões e profundos questionamentos.
De
acordo com Rosoux, ao reformular as Teorias das Relações Internacionais, Jean
Barrea ressalta a necessidade de sair das teorias tradicionais para abordar a
arte como ampliadora da realidade internacional e, então, poder-se-á considerar
o papel da arte na resolução de conflitos.
Então,
Rosoux ressalta que ao longo de toda a história das relações internacionais,
nota-se o uso da arte na política, principalmente, como instrumento de
propaganda nacionalista, cujo papel é traçar perfis da identidade “inimiga”,
como no exemplo dado pela autora, das relações franco-alemãs no século XIX, em
que os franceses retratavam os alemães como os “maus” e se autodeterminavam
como os “bons” e “civilizados”, a partir deste discurso, legitimou-se a
violência contra o povo identificado como “bárbaro”.
Tendo
em vista o conceito de transubjetividade que, embasada na obra A Poética do Espaço (1978) de
Gaston Bachalard, Cynthia Cohen em Engaging
with the Arts to Promote Coexistence (2003)
expõe-no como o efeito da imagem/estética alheia sobre nós mesmos. Cohen também
ressalta que as crianças somente desenvolvem uma identidade étnica ou nacional
a partir do momento em que ela captura os símbolos externalizados pelo grupo em
que estão inseridas; símbolos esses que podem criar uma imagem “transubjetiva”
de que outro grupo étnico ou nacional é inimigo. Logo, percebe-se como a
propaganda francesa influenciou na transubjetividade de efeito negativo sobre a
construção da identidade de seu povo e de outrem.
No entanto,
Rosoux também apresenta como o uso da arte na política como instrumento de
propaganda pode repercutir de forma positiva, dando o exemplo da West-Eastern Divan Orchestra,
fundada por Daniel Barenboim em 1999, com o apoio de Edward Said, reunindo através
da música diversos grupos culturais/étnicos/nacionais, como palestinos,
israelenses, egípcios, jordanianos, etc. Mesmo não alcançando efetivamente os
países alvos, acabou por ampliar a percepção internacional acerca dos conflitos
na região, ou seja, apresenta outra perspectiva de intervenção nos conflitos do
Oriente Médio, desta vez a propaganda tentando suavizar as interações que
estigmatizam o inimigo.
Ainda
analisando o papel da arte na política, Rosoux a associa com a gestão de
conflitos não estatais do passado, percebendo que as expressões artísticas têm
uma carga emocional em relação ao passado tão forte que muitas vezes impedem o
questionamento de suas próprias representações, mas percebe-se que o
questionamento das suas próprias representações artísticas e das representações
dos outros são condições fundamentais para a transformação das relações entre
as partes.
Daí
Rosoux apresenta a concepção de artista de Cohen, dizendo que os artistas
utilizam a arte em suas mais variadas formas para promover o compartilhamento
de experiências entre grupos outrora beligerantes. Porque Cohen entende que o
processo de reconciliação entre grupos sociais de uma ou mais comunidades vai
além da coexistência não-violenta, a reconciliação tende a transformar as relações
entre esses grupos, substituindo o ódio pela confiança, proporcionando também,
a partir da ótica do indivíduo, uma jornada de (re)aprendizado sobre si mesmo,
sobre sua comunidade e sobre outrem.
E nesse
mesmo sentido, Rosoux apresenta Beatrice Pouligny que entende a arte como forma
de comunicação e os artistas “reinventam a paz” ao estabelecer a comunicação do
“público” com as emoções. Assim como Schirch e Shank, em Strategic Arts Based Peacebuilding (2008), falam da arte como uma
forma de comunicação e de expressão dos seres humanos, portanto,
caracterizando-se como instrumento de funções sociais, tendo em vista a
capacidade das artes de transformar o modo de agir e pensar das pessoas e,
consequentemente, influenciando na dinâmica dos conflitos.
Então,
analisa-se a atuação da ONG RCN
Justice et Démocratie em
Burundi que, desde sua independência em 1962, vem sofrendo com diversos golpes
e massacres, além de haver o que Rosoux chama de “ressentimento histórico”
entre os grupos étnicos Hutu, Tutsi e Twa. Por isso, a RCN implementou medidas
junto à sociedade civil, na tentativa de recompor uma unidade identitária e
desenvolver a empatia entre eles.
Inicialmente,
a RCN coletou 260 histórias de atos ocorridos nas colinas do Burundi durante a
guerra civil, tentando reproduzir atos que substituíssem figuras relacionadas à
violência por figuras de justiça e solidariedade; posteriormente, essas
histórias foram direcionadas para a educação primária e secundária. Contudo,
essas histórias também serviram para grupos de apoio e para performances
teatrais, que deram origem a dois espetáculos cujos elencos eram formados por
atores das três etnias. Esses espetáculos foram montados a partir de Workshops
dados aos diversos segmentos da população, dividindo-se em duas etapas: Na
primeira, trabalhou-se a identidade, consciência e julgamento do ator e
espectador; já na segunda, voltou-se para os conflitos, sofrimentos
(sentimentos) e justiça.

As
performances já foram apresentadas a mais de 68.000 burundienses, evitando-se
locais rígidos como prédios do Estado ou da Igreja, impulsiona-se depois do
show um diálogo entre o “público”, os atores, representantes da comunidade e
dois psicólogos. Para Frédérique Lecomte, autor das peças, o grande número de
participantes significa que as representações artísticas realmente
representaram o sofrimento do povo burundiense, mas não só o representou,
levou-o, também, ao questionamento dos outros e de si. Logo, percebe-se o papel
da arte não só como canal de catarse do indivíduo, mas também como canal de
reflexão do indivíduo sobre os outros. Para Pierre Vincke, diretor da RCN, a
função da ficção é permitir a descrição do indescritível, tendo a capacidade de
abordar o passado traumático e foi exatamente o que aconteceu com as
performances desenvolvidas no Burundi.
Contudo,
Rosoux afirma que apenas o uso da arte na resolução de conflitos é
insuficiente, a autora infere que é ilusão esperar que a arte possa preencher
todas as lacunas deixadas pela guerra, mas deve-se visualizá-las como poderoso
instrumento capaz de transformar a dinâmica dos conflitos.
Portanto,
Rosoux elenca três condições para conectar o mundo das ideias (base da cultura)
com a arte. Primeiramente, quando pensado em longo prazo, a arte se torna ainda
mais eficiente na transformação do conflito. Por conseguinte, deve-se
considerar a importância do artista num amplo contexto, ressaltando que os
projetos artísticos dirigidos à população somente fazem sentido quando
aparelhados a ações mais convencionais, por exemplo, na área econômica,
política, institucional ou de segurança; essa segunda condição, corrobora com a
teoria de Segurança e
Emancipação (1991) de Ken
Booth, na qual ele diz que a liberdade
é o principal valor da emancipação, portanto, deve-se haver liberdade econômica
para assegurar a liberdade política dos povos, confirmando também a importância
do Estado, uma instituição que se faz necessária como um meio para que os povos
atinjam seus fins, assim como a segurança militar é relevante, desde que não
seja em detrimento da segurança humana. Já a terceira condição é perceber que a
realidade internacional possibilita a analise das relações, não somente dos
interesses e problemas.
REFERÊNCIAS:
BACHELARD, GASTON. A Poética do Espaço. In: Coleção: Os Pensadores. São Paulo: Abril S.A. Cultural & Industrial, 1978.
BOOTH, Ken, Security and emancipation, Review of International Studies 17, 313-326, 1991.
COHEN, Cynthia. Engaging with the Arts to Promote Coexistence. In: Imagine Coexistence: Restoring Humanity after Violent Ethnic Conflict. edited by Martha Minow and Antonia Chaves. Hoboken, NJ: Jossey-Bass, 2003.
SHANK, Michel; SCHIRCH, Lisa. Strategic Arts Based Peacebuilding. Peace & Change, 33.2, p. 217-242, 2008.
ROSOUX, Valérie. Arts et Résolution des Conflits. In. F. Massart (dir.), Culture et relations internationales, Presses universitaires de Louvain, p. 101-110, 2007.